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“A antiga fábrica de calçado da rua Anselmo Braamcamp, é um feliz e belíssimo exemplo do momento vivido pela cidade do Porto. Notável exemplo de uma era industrial tardia, foi perdendo importância e função pelo desenrolar do século XX e sobrevivendo, quase esquecida, até que entra no século XXI em estado de quase ruína.

Foi em 2016 que o nosso olhar soube ver o que estava à vista de todos e que ninguém parecia descortinar, esta fábrica tinha tudo para voltar a laborar, para voltar a ser suporte de produção, só que desta vez seria para uma das indústrias do século XXI. Este edifício com um pouco de atenção, com algumas (poucas) mudanças e com alguma (muita) reabilitação seria um espantoso edifício de escritórios!

O meu trabalho enquanto arquiteto, começou pela compreensão e potenciação de todas as qualidadesespaciais, formais e estéticas que esta quase ruína escondia. Essas fantásticas características que aguardavam pela nossa atenção basicamente era:
– LUZ INTERIOR. Com uma orientação perfeita, nascente – poente, bastantes aberturas a norte, os dois pisos são banhados por imensa luz. A qualidade já lá estava, a nós exigiu-se qualifica-la e controla-la;
– LOGRADOURO. Enorme pátio com construções de anexos e totalmente pavimentada a betuminoso, logo nos pareceu uma oportunidade para ali criar um jardim, ambiente de lazer e apoio aos escritórios, permitindo ainda incorporar estacionamento;
– ESTRUTURA EM BETÃO ARMADO. Edificado nos primórdios da construção em betão, esta estrutura (agora) sobredimensionada, que juntamente com a preocupação estética da época, oferece-nos uma qualidade formal e espacial não de uma fábrica, mas de um enorme salão de festas… mais uma vez, era preciso saber ver e potenciar;
– ESTRUTURA DA COBERTURA. Claramente muito intervencionada ao longo dos tempos, encontramo-la com uma mistura de betão armado, madeira, fibrocimento e policarbonato. Aqui o nosso trabalho foi refazer a história, mentindo bem e conferir-lhe uma qualidade que aparenta original, mas de original somente tem a estrutura primária;
– FACHADA À RUA. Com desenho tipo Belas Artes, este alçado de fábrica ostenta a dignidade de outro tempo, de outras candências temporais. A nós competiu-nos gostar e respeitar, qualificando os vãos, que estavam bastante adulterados, em dialética com o preexistente.
Absorvidas as qualidades e vantagens existentes, havia que resolver os problemas da atualização do edificado às exigências dos escritórios modernos.
– ENTRADA PRINCIPAL. Não havendo nenhuma entrada de carater formal, adaptamos a antiga entrada de cargas da rua, aí criando um novo átrio, novas acessibilidades e controlo de acessos;
– QUALIFICAÇÃO GERAL DO EDIFÍCIO. Neste caso, por evidente inexistência, houve que criar novas instalações sanitárias, equipamentos de AVAC, novas redes de infraestruturas, garantir a segurança contra incêndio, criando uma saída de emergência com uma escada exterior para o jardim.

Toda a intervenção arquitetónica foi guiada pelo espírito de respeito pelo edifício, pela sua linguagem, sendo que os materiais, as técnicas usadas, a estética proposta é de carater absolutamente moderno e contemporâneo, mas em evidente diálogo e continuidade com a preexistente.”

texto. André da Costa Almeida.

localização.Porto
ano. 2018
arquitetura.André da Costa Almeida.
fotografia.Ivo Tavares Studio

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The old shoe factory on Rua Anselmo Braamcamp is inarguably a most beautiful example of the current vibe within the city of Porto. It is a remarkable example of a belated industrial era, having lost both importance and purpose with the unfolding of the 20th century, and although barely remembered, it crumbled into the 21stcentury in a state of near ruin.

In 2016, however, we caught a glimpse of what was obvious to everyone yet no one else was able to figure out, the factory bearing everything to set it into motion one more time, able to be pressed into service once again, but this time geared up for the industries of the 21st century. A dash of effort with a number of (few) changes and some (rather large) rehabilitation would give rise to an astonishing office building.

My work as an architect began by understanding and making the most of all aesthetic, shape, and spatialqualities hidden by the dilapidation. The remarkable characteristics beneath such ruin were essentially: – INTERIOR LIGHT. With the perfect east-to-west orientation, including considerable north-facing openings, with both floors bathed in plenty of light. Its quality had been accounted for, we merely had to qualify and control it;
– PATIO. A spacious interior patio with outbuildings, all fully-paved in asphalt, revealing what seemed the opportunity to create a garden there, with an ambience of leisure and lending support to the office space whilst still enabling a parking lot.
– REINFORCED CONCRETE STRUCTURE. Built at the start of concrete construction, this (now) oversized structure, together with the aesthetic care of the past, affords both formal and spatial quality unlike that of a factory, but of an enormous party hall… once more, it all came down to potential and vision.
– COVER STRUCTURE. With plenty of changes over the years, we were faced with a combination of reinforced concrete, wood, asbestos cement and polycarbonate. Our task was to rebuild history, forging as much as possible to ensure original-looking quality, but where in fact only the primary structure is indeed the initial one.
– STREET FAÇADE. With a fine art design, this factory façade bears the dignity of other eras, of bygone days. The onus was on us revel in and respect it, qualifying the spans that had been altered, and making it all come together.
Amid existing qualities and advantages, problems arose that came with updating the building to the demands of a modern office.
– MAIN ENTRANCE. Lacking a formal entrance, we adapted the former delivery street door, thus creating a new atrium with altered entries and access control;
– GENERAL BUILDING UPDATING. In this case due to obvious inexistence, we had to create new sanitary facilities, an HVAC system, a new infrastructure network, assure fire security standards and create a new outdoor emergency exit system into the garden.

The entire architectonic intervention was guided by the spirit of respect for the building and its language, seeing that all the material used, the techniques employed and proposed aesthetics are of a modern and contemporary character but in clear dialogue and continuity with the pre-existing building.

text. André da Costa Almeida.

location.
Porto
year.
2018
architecture.
André da Costa Almeida.
photography.
Ivo Tavares Studio