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“Este conjunto edificado situa-se no centro da cidade da Maia, teve origem numa casa de lavoura do inicio do século XX, outrora implantada numa propriedade agrícola de maiores dimensões. Absorvida pelo crescimento urbano da cidade da Maia, ao longo do tempo esta habitação sofreu várias alterações, em particular uma ampliação na década de 80 justaposta à fachada tardoz.

Foram identificas duas fases da edificação distintas nas suas formas geométricas e construtivas, são representativas de duas épocas de construção em Portugal. 

O edifício original (primeira fase) tem uma ordenação marcadamente ortogonal, serena e simples dos alçados e da sua volumetria, decorrente da herança dos processos de simplificação e sistematização do barroco, iniciada no período do iluminismo pombalino e protagonizada à maneira austera dos construtores locais. Estruturalmente, o sistema construtivo desta fase caracteriza-se por paredes portantes em alvenaria de pedra e por vigamentos de madeira para os pavimentos dos pisos superiores e telhado da cobertura. 

A ampliação dos anos 80 (segunda fase), é uma edificação onde a volumetria e os alçados não se ordenavam pelos princípios geométricos de composição clássica, representa uma total desajustada proporção volumétrica, organização desacuada e com um sistema construtivo distinto do original assenta em pilares, vigas e laje em betão armado. A identidade diferenciada destas duas fases construtivas distinguia-se igualmente na forma de distribuição do programa. No edifício original o rés-do-chão era um espaço único amplo para arrumos de apoio agricultura com pequeno um lagar de uvas, enquanto o primeiro piso destinado à habitação, estava dividido em nove compartimentos distribuídos ao longo de dois corredores, um longitudinal e outro transversal, dispostos em forma de “T”. A ampliação, foi uma expansão da área de habitação na fachada tardoz, com uma sucessão de espaços organizados sem zonas de circulação.

A desadequação do programa e da compartimentação interior do edifício original (relativamente às necessidades do novo utilizador), o desajuste da integração das volumetrias e dos alçados da ampliação face a esta primeira fase de construção e a má articulação entre os espaços interiores e os usos no exterior, foram os meios fundamentais para determinar e conduzir o projecto na intervenção de reabilitação deste conjunto edificado.

Após uma leitura sobre a qualidade arquitectónica das duas principais fases construtivas e no intuito de valorizar o património existente, concluiu-se ser necessário preservar as características da linguagem do edifício original e criar uma nova linguagem que requalificasse os elementos dissonantes pré-existentes e desse uma homogeneidade entre eles. Este contraponto, surge através do contraste entre duas linguagens distintas, é determinante na expressividade e identidade formal da proposta.

No edifício original este diálogo encontra-se em acções pontuais como a adição e subtracção de paredes, adequando as novas funções do programa aos espaços pré-existentes. Assim no piso térreo, antes um espaço único, construi-se uma volumetria (para a lavandaria e uma instalação sanitária) localizada sensivelmente a meio do espaço e o divide em dois, de um lado uma zona de entrada (com a garagem e armários de arrumação) e do outro uma sala de estar. No primeiro piso, aproveitando-se os corredores e a compartimentação pré-existente, a intervenção procura clarificar a existência de duas zonas funcionais, a das áreas comuns (cozinha e sala) e a dos quartos. A zona da cozinha e da sala desenvolve-se agora em “L”, estes dois compartimentos comunicam visualmente entre si e estão separados por uma porta, através da qual é possível estender a zona de refeições da cozinha para o interior da sala.

A ampliação, por seu lado, fazia parte dos elementos dissonantes a requalificar, a sua reformulação surgiu da vontade de libertar-se a volumetria da fachada tardoz do edifício original e da necessidade de se ter um espaço exterior coberto. Assim transformou-se, num “alpendre de dois pisos” articulado com o jardim, servindo de interface entre as funções interiores e os usos no exterior. Aproveitando-se a plasticidade deste sistema construtivo, volumetricamente esta reconfiguração procura, por um lado, algumas continuidades através dos alinhamentos do plano de cobertura e da fachada norte com o edifício original, e por outro, pretende destacar-se deste através de uma linguagem mais abstrata de contraste que o valorize (duas linguagens dois períodos construtivos), assumindo-se a desfragmentação volumétrica resultante do crescimento deste conjunto edificado por somatórios. Redesenharam-se os alçados com vãos amplos e a articulação entre os dois pisos com zonas de pé-direito duplo, procurando libertar-se os vãos (as janelas e as portas) da fachada tardoz do edifício original para a entrada de luz natural e relações visuais sobre o jardim. Estes espaços criam jogos de luz e sombra, confrontando a geometria das formas da arquitectura com os elementos naturais do jardim, enfatizando o dramatismo da passagem do tempo nas suas diversas escalas.

A geometria do jardim clarificou-se em função de continuidades com o novo desenho da proposta, para além das circulações criaram-se zonas de estar associadas ao interior.”

texto. Adoff.

localização.Maia
ano. 2019
arquitetura.Adoff
fotografia.Ivo Tavares Studio

en

“The set of buildings is l ocated in the center of the Portuguese city of Maia, a neighboring town of Porto, and has its origins in an early 20th-century farmhouse, once part of a larger estate. Absorbed by the urban growth of Maia, the property has been remodeled and transformed several times over the years, with an extension added in the 1980s to the rear façade.

Two distinct phases of the buildings construction were identified, which differ in their geometric and constructive forms and represent two epochs of Portuguese architectural history. The original building (first phase) has a mostly orthogonal plot, a serene and simple design of the volumes and facades, which has its origin in the processes of simplification and systematization of the Baroque, starting in the Pombaline reconnaissance and beingfrom utmost importance by the austere way of execution of local contractors. Load-bearing masonry walls, the wooden beams of the floors above and of the roof characterize the formative, structural elements of the first construction phase.The annex that has been added in the 1980s (second phase) is a part of the building where volumes and elevations were not ordered by the geometric principles of classical composition and represent maladjusted volumetric proportions, without a general spatial organization that furthermore are also distinguished from the existing, through their construction with reinforced concrete beams, ceilings and pillars.

The different identities of these two dominant construction phases that were found here differ equally in the form of the division of the spatial program. The ground floor of the older existing building was originally a single, large room that was used as an agricultural storage area and also contained a small grape press, while the first floor was used as an apartment. Divided in nine rooms, distributed along two corridors, one longitudinal and one transverse, arranged in a T-shape. Last amended is the addition to the rear elevation of the building connects directly to the rooms and has no circulation areas.

Since the existing space allocation plan was outdated and inadequate for the needs of the new users, the mismatch between the integration of the volumes and the elevations in relation to the first phase of construction, as well as the poor connection between interiorand exterior spaces, were the decisive reasons to determine the project and lead to the decision to intervene and rehabilitate the set of buildings.  

Through studies and analyzes about the architectural qualities of both constructed parts, the decision was made to improve the preexisting, taking into account the preservation of itsarchitectural language, but with the intention of creating a new architectural language that would re-qualify the pre-existing dissonant elements and eventually leads to a homogeneitybetween old and new. This counterpoint evolves from the contrast between two architectural languages ​​and is crucial to the formal identity and expressiveness of the design.

In the oldest part of the existing building, this dialogue can be found in specific interventions such as the addition and removal of walls, whereby the new functions of the program have been adapted to the preexisting structure. Thus on the ground floor, formerly a single, large room, a volume (laundry room and a toilet) is inserted roughly in the middle of the spacewith great sensitivity, and divides it in two areas: on one side the entrance area, incl. garageand fitted wardrobes with storage space and on the other side a generous living area facing the garden. Taking advantage of the corridors and pre-existing partitioning on the first floor, the intervention aims to create a clear separation of the functional areas, living area (kitchen, dining and living room) and the bedrooms. The kitchen and living room are L-shaped and these two compartments communicate visually with each other and are separated by a transparent, foldable door through which the kitchen and dining area can be extended into the living room.

The  annex, dating back to the 1980s, was one of the most dissonant parts and needed to be requalified. This reformulation arose from the desire to free the volumetry of the existingfaçade, redesign the rear façade of the original building and to create a covered outdoor area The extension has been transformed into a two-story porch and acts now as an interface between indoor and outdoor uses. Taking advantage of the plasticity of this construction system, this interventions seeks volumetrically to give continuity to this reconfiguration with various intervention: on one hand through the alignment of the roof plan and the north façade with the original building and on the other hand by an abstracted expression (two architectural languages, two construction phases) and assuming the volumetric defragmentation resuming from inhomogeneously assembled volumes.

The elevations have been provided with generous openings and the connection of the floors, including zones with double story height, aims to stand out and break free from the openings (windows and doors) of the existing facades and natural light can enter and opens exciting views to the garden. These spaces create a play of light and shadow, in which the geometry of the architectural forms faces the natural elements of the garden andemphasizing the drama of the passage of time on its various scales.

The shape and layout of the garden evolves from the continuity of the new design and the movement through space. Outside living areas were created in addition, connect naturally to the building and are associated to the interior space.”

text. Adoff

location.
Maia
year. 2019
architecture.Adoff
photography.Ivo Tavares Studio