DESCRIÇÃO DO PROJETO
"No desenvolvimento deste projeto, os clientes, juntamente com filhos e netos, encontravam-se a iniciar uma nova etapa da sua existência. Ao longo de toda a sua trajetória profissional, pautaram-se pelo cuidado na preservação e no respeito transmitido às gerações seguintes. Procuraram agora incorporar esses mesmos valores no seu espaço de habitação, conferindo-lhe continuidade e vitalidade e, acima de tudo, mais significado.
Após três meses a residir na casa da piscina, devido a uma intervenção na casa principal, a família reconhece o potencial do espaço, o que motivou a realização da intervenção na atual “Casa do Engenho”.
A proximidade entre clientes e arquitetos, amigos de longa data, permitiu compreender de forma profunda as vivências e necessidades da família, servindo também de inspiração para a conceção do projeto. A “atitude de coragem” por parte do cliente e “o acompanhamento de obra indispensável, permitiu que o projeto tivesse este desfecho” (Proprietário, 2025).
A intervenção na Casa do Engenho reflete este desejo de conjugar tradição e futuro, conservando a memória do lugar enquanto lhe proporciona renovação, funcionalidade e conforto - princípios que merecem aqui o nosso reconhecimento e agradecimento.
A Casa do Engenho é uma obra de intervenção num edifício outrora destinado a prolongar a vivência da casa principal, acolhendo celebrações e encontros familiares. Implantada no seio de uma propriedade agrícola em Vila Nova de Gaia - território de relevos suaves -, a construção integra um conjunto edificado do início do século XVIII, no qual se incluem a residência principal, áreas de cultivo, eira, poços, um deles “engenho” e outros pequenos edifícios de apoio.
A proposta assenta numa transformação integral do interior, preservando, todavia, a integridade estrutural e a expressão arquitetónica exterior, cuja leitura foi clarificada através da ordenação da métrica da fachada e da introdução de novas portadas assegurando conforto e flexibilidade na gestão da luminosidade interior.
Antes da intervenção, a casa da piscina apresentava uma organização rígida, compartimentada e impessoal, composta por uma garagem, um salão e uma cozinha, todos independentes e desarticulados, o que limitava a vivência dos espaços em termos funcionais. É precisamente na tentativa de combater estas barreiras que surge a oportunidade de repensar a organização interior para função e exigência habitacional.
Embora em continuidade física com a casa principal, este corpo adquire identidade própria, afirmando-se com uma linguagem mais contemporânea e contrastante. O interior foi pensado para modernizar e revitalizar os espaços, explorando ao máximo a permeabilidade visual e a luz natural proveniente sobretudo de poente.
O programa habitacional distribui-se em dois pisos já existentes, interligados através de uma escada contemporânea. A escada original foi reabilitada, assumindo-se como elemento simbólico e escultórico no desenho final. Constituída, na sua base, por degraus em pedra, coincidentes com o pavimento do hall de entrada, estabelecem uma continuidade material entre os espaços. A restante escada desenvolve-se numa sequência dos degraus em madeira, que introduzem leveza, calor e ritmo ao percurso ascendente, desde as zonas mais públicas da casa até às zonas mais íntima da habitação.
No piso térreo concentram-se as áreas sociais, organizadas num espaço contínuo, onde sala de estar, sala de jantar e cozinha constituem um só ambiente. A fluidez entre os espaços é reforçada pela uniformidade material, em particular pela presença da madeira, que confere unidade e amplitude. A relação entre sala e cozinha pode ser controlada por painéis deslizantes em madeira, permitindo controlar a abertura ou a privacidade consoante a ocasião. Ainda neste piso, o programa integra lavandaria, despensa, instalação sanitária de serviço, garagem e a suíte principal, composta por closet, instalação sanitária e área de spa com ligação direta ao exterior.
O piso superior acolhe duas suítes e um salão amplo, todos com acesso a varandas. A cobertura inclinada integra claraboias estrategicamente posicionadas, que asseguram iluminação natural. Além disso, prolonga-se para além do perímetro da casa, formando uma área
exterior coberta que amplia as possibilidades de uso e permanência, ao mesmo tempo que assegura proteção solar.
Após a intervenção, o edifício adquire um novo protagonismo de toda a propriedade, deixando de ser um espaço complementar para se afirmar como a habitação principal da família. A requalificação devolve-lhe vitalidade e significado, salvaguardando a memória do lugar. A materialidade recorre a elementos naturais, capazes de dialogar com a pré-existência, enquanto a espacialidade interior privilegia a continuidade, a fluidez e a relação entre interior e exterior, garantindo a continuidade da vivência familiar num espaço renovado, luminoso e acolhedor. "
Texto fornecido pelo atelier de arquitetura





















































































