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“O projecto é concebido com o intuito exclusivo de receber um Políptico. Uma obra composta por um conjunto de painéis fixos e móveis, montados num suporte único. 

Convencionalmente associado à arte sacra, a obra não representa temas de ordem religiosa, mas sim de carácter erótico. É nesta ambiguidade entre o sagrado e o profano que o projecto surge. 

O Políptico de 5 por 3,5 metros e de composição simétrica impõe que o primeiro contacto seja distante e frontal. Pensou-se a entrada como um volume complementar, para evitar o confronto imediato com espaço de contemplação. Um percurso bifurcado que encaminha o observador e o posiciona num confronto frontal com a pintura, somente no interior. Uma característica referente à arquitectura religiosa islâmica, no modo como se prepara a chegada aos espaços de culto. 

A entrada é estreita e delimitada por planos diagonais, em contraste com o espaço de contemplação. A ausência de luz anula a percepção dos limites, tornando-a num cenário indefinido e infinito. A luz existente está recortada pela pintura, destacando-a como elemento singular sob o fundo negro das paredes e tecto. O som dos passos sobre a madeira do soalho participa na teatralidade do conjunto e remete para um contexto de espaço religioso.

Do exterior, percepciona-se a composição dos dois volumes. A entrada de cor ensanguentada penetra no espaço de contemplação, cujo revestimento em cortiça, reforça a textura antropomórfica da obra.”

texto. Maria Souto de Moura

localização.Centro Cultural de Belém, Lisboa
ano. 2017
arquitetura.Maria Souto de Moura
fotografia.Ivo Tavares Studio

en

The project was conceived with the exclusive intention of receiving a polyptych. A piece composed by a set of mobile and fixed panels, built on a single support. 

Traditionally associated with sacred art, the art piece does not represent religious themes, but is instead of an erotic nature. It is in this ambiguity between the sacred and the profane that this project emerges. The polyptych, a 5 by 3.5 metres symmetrical composition, imposes a distant but direct first contact. The entrance was thought of as an additional feature to avoid an immediate confrontation with the contemplation space. A bifurcated path leads and positions the observer in front of the painting, only from within the space. A characteristic associated with the Islamic architecture, in way the arrival to a place of worship is prepared. 

The entrance is narrow and enclosed by diagonal planes, in contrast to the contemplation space. The lack of light dissolves the perception of the spatial boundaries, thereby becoming an undefined and infinite scene. The existing light is cut-out by the painting, standing out as a singular element floating in the dark backdrop of the walls and ceiling. The sound of footsteps on the wooden floor is part of the theatricality of the assembly, referring to the ambience of a religious space. 

From the outside, one clearly perceives the composition of the two volumes. The entrance of a bloodstained colour penetrates the contemplation space, whereas the cork skin reinforces the anthropomorphic texture of the piece.

text. Maria Souto de Moura

location.Centro Cultural de Belém, Lisboa
year. 2017
architecture.Maria Souto de Moura
photography.Ivo Tavares Studio