FOTÓGRAFO DE
ARQUITETURA

IVO TAVARES
STUDIO

PROJETO ANTIGO

Mini Atalhada, do atelier de arquitetura SO Arquitetura & Design, é uma micro habitação vertical de 35 m² construída sobre uma implantação de 13 m² na costa sul da ilha de São Miguel, Açores. Uma habitação mínima em betão à vista, madeira clara e azulejo preto, desenhada pelos próprios arquitetos como exercício sobre os limites da habitação contemporânea.

Fachada em betão aparente cinzento à noite, com iluminação interior visível através dos vãos — MINI ATALHADA arquitectura SO Arquitetura & Design fotografia Ivo Tavares

INFORMAÇÃO TÉCNICA

ATELIER DE ARQUITETURA
ARQUITETO RESPONSÁVEL
Bruno Furtado, Gonçalo Blétière Lopes
COLABORAÇÃO
Margarida Condeixa, Neuza Duarte, Mariana Figueiredo
LOCALIZAÇÃO
ANO DE CONCLUSÃO DA OBRA
ÁREA TOTAL CONSTRUÍDA (M2)
35m2
FISCALIZAÇÃO
SO Arquitetura & Design
PAISAGISMO
SO Arquitetura & Design
IDENTIDADE VISUAL
SO Arquitetura & Design
DECORAÇÃO DE INTERIORES
SO Arquitetura & Design
FOTÓGRAFO

DESCRIÇÃO DO PROJETO

A Mini Atalhada resulta da transformação e ampliação de uma pequena construção destinada a arrumos, com apenas 13 m² de implantação, localizada na Atalhada, cidade de Lagoa, na costa sul da ilha de São Miguel, Açores. Inserida numa frente urbana consolidada e próxima do mar, a

construção foi adquirida pelo próprio atelier com o objetivo de explorar os limites mínimos da habitação contemporânea.

Desde o início, este projeto assumiu uma condição particularmente especial: não foi desenvolvido para um cliente externo, mas para os próprios arquitetos. Esta circunstância transformou todo o processo num exercício de autorreflexão e de autocrítica sobre a forma como desenhamos, construímos e habitamos espaços extremamente reduzidos.

O desafio consistiu em converter uma pequena zona de arrumos, cuja dimensão nem sequer permitia o estacionamento de um automóvel, numa habitação de tipologia T0, completa, funcional e confortável. Perante uma implantação de apenas 13 m² e a impossibilidade de ampliar significativamente em planta, o programa foi organizado verticalmente, distribuindo-se por vários níveis e perfazendo aproximadamente 35 m² de área bruta total.

A circulação vertical tornou-se o principal elemento organizador da casa. Num espaço desta dimensão, a introdução de uma escada poderia comprometer uma parte significativa da área útil. A solução adotada procurou reduzir o seu peso físico e visual, recorrendo a uma estrutura compacta em chapa metálica perfurada, combinada com degraus em madeira. A transparência do metal permite a passagem da luz e preserva as relações visuais entre os diferentes pisos.

A organização funcional acompanha o desenvolvimento vertical do edifício. O nível inferior estabelece a relação direta com a rua e integra as funções de entrada e apoio. Nos níveis intermédios localiza-se a zona de dormir, enquanto o piso superior reúne os espaços de estar, trabalho e preparação de refeições, beneficiando de maior luminosidade e de uma relação privilegiada com a envolvente e com o mar.

Mais do que uma sequência de pequenas divisões, a Mini Atalhada foi concebida como um sistema habitacional integrado. Arquitetura, estrutura, iluminação, mobiliário, armazenamento e equipamentos foram desenhados em conjunto, procurando eliminar áreas residuais e atribuir mais do que uma função a cada elemento. O mobiliário fixo, executado à medida, concentra a arrumação e as funções domésticas, contribuindo para uma leitura contínua e organizada do interior.

A materialidade reforça a identidade do projeto. O betão armado permanece visível, assumindo a sua textura e o seu caráter estrutural. Em contraste, a madeira clara introduz conforto e uma dimensão mais doméstica. As caixilharias pretas, os elementos metálicos e os revestimentos cerâmicos escuros criam profundidade e acentuam o contraste entre superfícies minerais, quentes e refletoras.

A luz natural e artificial foi tratada como matéria de projeto. Os vãos ampliam visualmente o interior, enquadram a paisagem e permitem que a luz atravesse os diferentes níveis. Durante a noite, a iluminação integrada revela a ocupação da casa através da fachada, tornando legível a sobreposição vertical dos espaços.

A Mini Atalhada representa também uma reflexão crítica sobre a atual crise habitacional. Perante o elevado custo dos terrenos, da construção e da habitação, o projeto procura demonstrar que é possível utilizar menos área e menos recursos sem abdicar de conforto, identidade e qualidade arquitetónica.

A partir de uma pequena zona de arrumos com apenas 13 m², foi possível criar uma habitação completa, singular e profundamente ligada à luz, aos materiais e à paisagem da costa sul de São Miguel. A Mini Atalhada afirma que a qualidade arquitetónica não se mede apenas em metros quadrados, mas no rigor, na inteligência e na humanidade com que cada metro quadrado é pensado.

Texto fornecido pelo atelier de arquitetura.

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