DESCRIÇÃO DO PROJETO
"Um refúgio inesperado que a cidade esconde e o portão revela.
Habitar o espaço entre duas ruas em plena cidade é a condição que dá origem à Casa Sem Rua. Implantada no interior de um quarteirão tradicional do Porto, sem contacto direto com qualquer arruamento e completamente invisível a partir do espaço público, a casa pertence à cidade, embora a experiência de a habitar permaneça protegida da exposição e da intensidade da vida urbana.
A nascente, o acesso principal faz-se através do estreito corredor de uma ilha. A poente, uma segunda entrada atravessa a serventia de um edifício vizinho. No interior do lote, os dois acessos são ligados por um corredor exterior que acompanha toda a fachada sul. As duas entradas correspondem também a cotas distintas, reconciliadas pelo percurso através da propriedade.
A experiência do projeto começa antes da entrada na habitação. A proporção estreita do corredor da ilha comprime o percurso, limita o campo visual e impede que se antecipe o que existe para além do portão. Ao atravessá-lo, o visitante não entra imediatamente na casa, mas num corredor exterior onde a moradia começa a revelar-se. A surpresa resulta do contraste entre compressão e abertura, sombra e luz, densidade urbana e refúgio doméstico.
À direita, no prolongamento das casas da ilha, surge um volume autónomo de madeira e vidro que assinala a entrada principal. A sua autonomia permite entendê-lo como uma espécie de plug-in acoplado ao extremo da casa, embora desempenhe um papel estrutural na organização da habitação. A cota de entrada situa-se entre os dois pisos. A partir daqui, desce-se meio piso para alcançar a zona social ou sobe-se meio piso para chegar à área privada.
Este volume luminoso articula entrada, distribuição e permanência. A escada desenvolve-se num espaço de pé-direito duplo, atravessado pela luz dos grandes envidraçados. No nível inferior, o primeiro lance em betão alarga-se para o dobro da largura necessária à circulação, adquirindo a configuração de um pequeno anfiteatro doméstico. Os degraus tornam-se lugares onde é possível sentar, conversar ou observar a vida da casa. No patamar superior, a circulação dá acesso aos quartos e abre-se para um pátio exterior. O microcimento do lance inferior relaciona-se com o piso social, enquanto a madeira da metade superior anuncia o ambiente mais íntimo da zona privada.
No piso inferior, a sala e a cozinha ocupam um espaço contínuo, marcado por um degrau entre os dois ambientes. Uma caixa de madeira esconde a instalação sanitária social, o único elemento fechado deste nível. A poente, um grande vão prolonga a sala até ao terraço, transformando-o numa extensão do interior. No piso superior encontram-se dois quartos, uma instalação sanitária comum e uma suite cujo teto acompanha a geometria da cobertura de duas águas.
A luz, a madeira, as cores e as texturas equilibram a contenção formal do projeto e conferem-lhe uma atmosfera descontraída, próxima de uma casa de férias. Apesar da densidade envolvente, a distância relativamente às ruas cria uma inesperada sensação de tranquilidade.
As limitações de acesso condicionaram também a construção. A estrutura em Light Steel Framing foi escolhida pela leveza e pela facilidade de transporte e montagem dos seus componentes através das estreitas passagens existentes. A implantação define, assim, tanto a experiência da casa como a sua lógica construtiva.
Entre duas ruas, diferentes cotas, exterior e interior, memória urbana e habitação contemporânea, a Casa Sem Rua encontra a sua identidade numa sucessão de condições intermédias. Um refúgio inesperado que a cidade esconde e o portão revela."
Texto fornecido pelo atelier de arquitetura.

















































































































