DESCRIÇÃO DO PROJETO
"No Umber Duplex, uma arquitetura de linhas rigorosas e depuradas serve de
contraponto a uma composição mais quente, táctil e expressiva, onde madeiras de veio intenso, arte africana, peças de autor e referências artesanais constroem uma identidade profundamente pessoal.
O primeiro contacto com o apartamento revelou imediatamente algumas das suas maiores qualidades: áreas generosas, três frentes e uma excelente exposição solar, que lhe conferiam um elevado potencial de transformação. Em contraste, os interiores apresentavam acabamentos datados, uma decoração demasiado densa e uma compartimentação excessiva das áreas sociais, separando cozinha, sala de jantar e sala de estar e limitando a continuidade espacial e a propagação da luz natural.
A abertura da zona social tornou-se, por isso, um dos principais objetivos da intervenção. O maior desafio surgiu na cozinha, quando a cliente manifestou o desejo de poder abri-la completamente para a sala, mantendo simultaneamente a possibilidade de a encerrar. A resposta passou pela integração de um sistema italiano de caixilharia móvel, sem calha no pavimento, cujas folhas podem ser recolhidas e estacionadas de forma discreta, sem interferir com a circulação. A entrada da lavandaria foi igualmente integrada no desenho da cozinha, reduzindo o ruído visual do conjunto.
O programa foi profundamente moldado pela personalidade e pelo modo de vida dos clientes. Executiva e colecionadora de malas e sapatos de luxo, a cliente pretendia que estas peças adquirissem no quarto uma presença semelhante à de uma montra. Perante a impossibilidade de criar um closet autónomo, foi desenhado um roupeiro à medida ao longo de toda a suíte, com portas envidraçadas, caixilharia em cobre, vidro de efeito espelhado e interiores folheados a pau-cetim e iluminados. A televisão permanece oculta atrás do envidraçado, preservando a continuidade do plano.
O mesmo desejo de sofisticação conduziu à criação de instalações sanitárias concebidas como “caixas de vidro”, abertas visualmente para os quartos e beneficiando da sua luz natural. A banheira estabelece uma relação direta com a suíte, aproximando da atmosfera de universo hoteleiro pretendido pelos clientes.
O conceito do Umber Duplex nasce do equilíbrio entre dois universos: uma arquitetura rigorosa, depurada e contemporânea e uma dimensão mais quente, táctil e cultural. O nome Umber, associado aos pigmentos naturais de terra, traduz a paleta de castanhos, ocres e tonalidades minerais que atravessa o projeto.
Nas carpintarias predominam folhas naturais de pau-santo, pau-cetim e hard maple, conjugadas com travertino na cozinha e porcelanatos marmoreados nas instalações sanitárias. Perante a forte expressão gráfica dos veios da madeira nos planos verticais, optou-se por uma base mais neutra nos pavimentos e tetos. Um porcelanato em tons de areia permite ainda prolongar visualmente o pavimento para as varandas, reforçando a continuidade entre interior e exterior.
A aparente simplicidade dos planos esconde uma execução exigente: veios casados, superfícies alinhadas e soluções técnicas ocultas exigiram grande rigor em obra para alcançar planos contínuos e visualmente silenciosos. Ao longo do dia, a luz proveniente das três frentes altera a leitura destes materiais, revelando diferentes profundidades, brilhos e tonalidades e reforçando a dimensão sensorial dos interiores.
A singularidade do projeto reside precisamente nos contrastes. A contenção arquitetónica convive com madeiras expressivas, tapetes berberes, objetos artesanais e arte africana, numa referência subtil às origens dos clientes. Peças de referência do design italiano, de autores como Patricia Urquiola, Studiopepe, Giuseppe Bavuso e LucidiPevere, coexistem com peças da ID Concept desenhadas por Daniel Duarte, conferindo identidade e autoria ao conjunto.
No resultado final, os diferentes contrastes que estruturaram o projeto revelam-se em equilíbrio. A intensidade das madeiras, a neutralidade dos planos, a presença da arte e das peças de autor coexistem numa atmosfera coesa, serena e profundamente identitária."
Texto fornecido pelo atelier de arquitetura.





















































